Uma pequena e controversa história

Vou relatar a seguir uma pequena história, um pouco desconcertante, sobre a Kwan Yin.

Gostaria de deixar meu comentário antecipadamente, pois sei que para a mentalidade ocidental, voltada muito mais para a questão do merecimento, o texto pode parecer uma heresia.

Não custa lembrar também que a Kwan Yin atua baseada em compaixão e não em méritos. Se começamos a separar as pessoas em classes estaremos efetuando um pré-julgamento, de forma pontual, e por isto equivocado.

Eu entendo os textos que referem ao modo da mente ocidental operar, e muitos orientais também devem pensar da mesma forma, que distinguem com uma certeza absoluta aqueles que merecem dos que não merecem. Afinal, nossa sociedade é mantida tendo por base o ponto de que fazemos por merecer, ou seja, não é certo, correto, apropriado alguém receber algo por compaixão.

O ato de se dar algo por compaixão desvirtua todo o modo de operação da sociedade ocidental. Isto é algo impensável, imaginemos que uma atitude assim comece a se propagar, como iríamos justificar que mesmo assim alguns recebem atos de compaixão e outros não. A nossa mente racional iguala tudo, assim se há compaixão para com um deve haver para com o outro.

Felizmente o Universo não funciona assim, ele segue outros caminhos que nossa operosa mente ocidental não consegue captar.

Para aqueles que possuem Fé, que acreditam em Deus, em algum ser que é maior do que tudo o que vemos fica mais fácil entender algo se manifestando desta forma. Mas como muitos só entendem aquilo que podem quantificar, dimensionar, ver, estes vão criar todos os empecilhos possíveis para evitar que este tipo de informação seja divulgada, conhecida.

Mas vamos a história:

Em criança fui muito ligado a minha mãe, que facilmente me persuadiu a recitar o santo nome de Kwan Yin centenas de vezes, de manhã e à noite, sem esquecer os momentos difíceis do dia. Eu o fazia não só para comprazê-la como pela consciência de que tudo o que ela me recomendasse só poderia ser excelente. Era uma pessoa maravilhosa como esposa e como mãe.

Embora idolatrasse meu pai durante os mais ou menos vinte anos de seu casamento, com um amor que aumentava em vez de diminuir, não hesitou em escolher para ele duas encantadoras concubinas para lhe dar o prazer que, na idade dela, já não poderia oferecer.

Durante meses, depois que as duas chegaram, ela costumava brincar com o modo com que meu pai se havia naquela juvenil sociedade, sem um assomo de ciúmes. Mas quando a vaidade o levou ao ponto de permitir que a mais velha das garotas usurpasse os privilégios da T´ai-T´ai (primeira senhora) ela se sentiu cruelmente ferida.

Dentro em pouco a concubina de dezoito anos, valendo-se da conivência de meu pai, fazia-se tão importante na casa que minha mãe era constantemente humilhada na presença dos criados – e até das visitas! Reconhecendo, com pesar, que o marido já não a amava e que não tinha mais por que viver, passava horas preparando-se para o renascimento num lótus que haveria de se abrir no paraíso de Kwan Yin. Para sua alegria, logo as forças lhe faltaram e dali a um ano ela se foi.

Quanto a mim, tinha os olhos vermelhos de chorar, mas sem poder mostrar raiva a meu pai, voltei-me contra Kwan Yin!

– Kwan Yin Bodhisattva – sussurrei furiosamente – levaste minha mãe com tuas lisonjas vazias! Não tens nenhuma Terra Pura e não existe compaixão neste mundo!

Será que minha reação foi exagerada? Como poderia sofrer assim uma mulher boa e dedicada, fiel devota da Compassiva? … A partir de então, desgostoso, deixei de proferir o nome sagrado de Kuan Yin.

Findo o luto, casei-me com uma encantadora garota da família Ch´en, escolhida para consolidar a longa amizade entre o seu pai e o meu. Apaixonado por ela estava disposto a qualquer coisa contra quem tentasse se imiscuir entre nós. Ora, tal pessoa, é fácil de adivinhar, não era outra senão minha Segunda Mãe, a concubina adventícia que embaíra meu pai e levara minha mãe a morte.

Fingindo afeição essa criatura abominável fez o que pode para minar o nosso amor e o nosso respeito mútuo. O pior de tudo é que nada tinha a ganhar com semelhante comportamento. Era motivada, estou certo, por uma tendência perversa em fazer o mal… Pensando no assunto dia e noite fiquei obcecado com a ideia de livrar a família daquele formoso monstro. Só o que me faltava eram meios seguros, que não comprometessem nem a mim nem a minha esposa.

No ano seguinte, por ocasião da Festividade da Pura Luz, toda nossa família deixou Cantão para varrer os túmulos dos ancestrais, localizados em um recanto aprazível das montanhas vizinhas.

Pouco depois do incidente, resolvi passear pelos arredores a fim de certificar-me de que não estavam rondando por ali. Sucedeu então que, por mero acaso, topei com a Segunda Mãe em um sítio afastado, procurando com os olhos uma árvore ou arbusto…

Não havia ninguém mais a vista e nada que me impedisse de concretizar o plano que se formara em minha mente: acabar com ela… Nas circunstâncias, não se duvidaria de que houvesse sido assassinada e pilhada pelos rufiões que afungentaramos. A oportunidade tão esperada fora posta em minhas mãos pelos deuses! O senhor parece chocado? Mas é dever de um bom filho vingar pai ou mãe!

Quanto a arma, tinha a disposição boa quantidade de pedras bastante adequadas ao trabalho. Avançando com um sorriso, disse-lhe:

– Segunda Mãe, não é seguro andar assim sozinha. E se aqueles sujeitos que acabamos de ver…

Tenho certeza que meu rosto não traía minhas intenções. Mas ainda assim ela adivinhou o que estava me passando na cabeça e demonstrou isso. Mas não gritou, nem recuou, nada disso. Ao contrário, permaneceu imóvel e… disse em tom suave:

– Chiu-k´u-chiu-nan Pu-Sa lai! (Bodhisattva Salvador-do sofrimento-salvador-de-agressão, vem!)

Em lábios tão afeitos à malícia, essa prece a Kuan Yin parecia tão incongruente que comecei a rir enquanto tentava agarrá-la – ou melhor, abri a boca para rir e, sem dúvida, ela ficou aberta de espanto, pois uma invencível paralisia me dominou…. fiquei como que petrificado!! Jamais vira mulher tão feliz e segura. Sorrindo aprazivelmente, agradeceu-me por ter vindo e voltou-me as costas. Ao caminhar para ir juntar-se aos demais…

Em segundos readquiri o controle sobre os movimentos, mas toda a ideia de matá-la se fora para sempre. Quem era eu para lutar contra o Bodhisattva?

Vê o senhor como é? Aquela mulher imoral, cuja malícia chegava as raias da crueldade, o avesso dos devotos comuns de Kuan Yin. No entanto, escapara à morte graças apenas à convicção absoluta de que o Bodhisattva compassivo nutre o desejo de salvar todos seres sencientes. Fosse a Segunda Mãe um demônio ou vampiro, não seria diferente: a compaixão de Kuan Yin chega até mesmo aos piores malfeitores, embora, é claro, ela não os ajude na perpetração de seus crimes. Sempre procura transformar o mal em bem. Eu, por exemplo, naquele mesmo dia retomei a recitação do seu santo nome e, de joelhos, agradeci-lhe por me poupar ao assassinato. E o que é mais, porém menos de esperar, a Segunda Mãe não tentou voltar a separar eu e a minha esposa… Talvez o Bodhisattva não se limitasse a salvar-lhe a vida, mas a afastasse também da senda da malícia e da maldade…

Um monge a quem, sem citar nomes, referi esta história, não mostrou surpresa:

– sempre soubemos que Kwan Yin salva todos só tipos de seres – foi seu tranquilo comentário.

Fonte: A Deusa da Compaixão e do Amor. John Blofeld. Página 144-149.

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