Lao Tzu e Confúcio

Conta-se que Confúcio foi ver Lao Tzu. Lao Tzu era velho e praticamente desconhecido, e Confúcio era mais jovem e conhecido praticamente no mundo todo. Reis e imperadores costumavam chamar Confúcio para se apresentar na corte, sábios costumavam procurá-lo para receber conselhos; naqueles dias ele era a pessoa mais sábia da China….

Confúcio tinha se tornado um especialista em ajudar os outros, mas não em ajudar a si mesmo. Ele então começou uma busca secreta para encontrar alguém que pudesse ajudá-lo. Sábios comuns não serviriam, pois eles é que costumavam procurá-lo para pedir conselhos. Mas devia haver alguém em algum lugar, pois a vida é muito ampla.

Ao ouvir a notícia de que existia um homem conhecido como “O Velho Camarada”, Confúcio foi vê-lo. Quando ele encontrou Lao Tzu, pôde sentir que ali existia um homem de grande compreensão, de grande integridade intelectual, de grande sagacidade lógica, um gênio, ele pode perceber que havia alguma coisa ali, mas não conseguiu captar o quê. Vaga e misteriosamente havia algo ali; esse homem não era uma pessoa comum, embora aparecesse absolutamente comum. Algo estava oculto, ele estava carregando um grande tesouro.

Confúcio perguntou: “ O que o senhor tem a dizer sobre a moralidade? O que o senhor tem a dizer sobre como cultivar um bom caráter?”

Pois Confúcio era moralista e achava que a maior conquista era cultivar um bom caráter.

Lao Tzu riu alto e disse: “se você for imoral, só então surgirá a questão da imoralidade. Se você não tiver nenhum caráter, só então pensará em caráter. Uma pessoa de caráter está absolutamente alheia ao fato de que existe algo como caráter. Uma pessoa que tem moral não sabe o que a palavra moral significa. Assim, não seja tolo! E não tente cultivar nada, simplesmente seja natural!”

O homem tinha tanta energia que Confúcio começou a tremer. Ele não conseguiu tolerá-lo e fugiu. Confúcio ficou com medo, como se estivesse a beira de um abismo.

Quando ele voltou a seus discípulos eles não puderam acreditar.. Aquele homem, Confúcio, tinha ido a imperadores, ao maior dos imperadores, e nunca viram nele nenhum nervosismo. E agora ele estava tremendo e havia um suor frio em todo o seu corpo.

Confúcio disse: “Esperem um pouco até que eu me recomponha. Este homem é perigoso..”

Confúcio disse: “Ouvi falar de grandes animais como elefantes, e eu sei como eles caminham; ouvi falar de animais ocultos no oceano, e eu sei como eles nadam…”

Mas esse homem é um dragão, e ninguém sabe como ele caminha, como ele vive.

Nunca se aproximem dele; ele é como um abismo, como a morte.

E esta é a definição de um Mestre: um mestre é como a morte.

Conta-se que Confúcio nunca mais foi ver aquele velho.

Podemos dizer até que existe um certo exagero nas afirmações de Lao Tzu, chamar alguém de imoral é algo um pouco complicado. Mas assim como o peixe não sabe o que é a água, assim como nós nem vemos o ar que respiramos podemos entender a afirmação. Aquele que não possui dentro de si algo não tem como definir este algo, nem ao menos se preocupa.

Não é o caso, evidentemente, da grande maioria dos seres humanos. Que temos um pouco de tudo o que existe ou já existiu. Temos a bondade e a maldade nas mais variadas escalas que podemos imaginar. E isto nos torna humanos, esta imperfeição.

Eu lembro um pouco de vários casos que vivenciei. Como aquele história, tão comum, do funcionário que vai crescendo na empresa, passando por vários cargos e um dia chega a gerência. Neste momento suas ações são todas punitivas, restritivas. Neste momento, da promoção, ele passa a proibir uma série de coisas que considera erradas, mas que ele praticou ao longo do tempo. Agora, como chefe, por conhecer tudo o que de ruim os empregados fazem ele se dedica a erradicar estas coisas, como se nunca as tivesse executado.

Assim, só o homem que conhece a maldade pode definir e combater esta maldade. Ela já faz parte da sua natureza.

A maioria de nós possui ainda tantas coisas ruins dentro de nós mesmos que vamos passar algumas vidas aprendendo a aceitá-las. Observem que eu disse aceitá-las e não removê-las. Qual a razão? A razão é que brigar com o que somos não resulta em nada útil, apenas perda de energia e as vezes em doenças, depressões e mal humor. Precisamos aprender a nos aceitar, aceitar o que temos de bom e o que temos de ruim, só assim podemos transcender este nível de existência.

Entretanto, falar é muito fácil, teorizar é muito fácil. Executar já se torna um pouco complexo. Sabemos lutar, brigar, disputar mas infelizmente sabemos muito pouco de aceitar. Lutar é uma atitude tipicamente masculina, Yang e aceitar é tipicamente feminino, Yin. Como a sociedade que vivemos é predominantemente Yang, valorizando e exigindo este tipo de comportamento podemos ter uma ideia da dificuldade em nos tornarmos mais Yin, é um processo muito trabalhoso esta busca por equilíbrio. Mas muitos conseguiram, nós, meros mortais também podemos.

Para começar podemos aceitar que temos vícios e defeitos. E que brigamos para superá-los. E como brigar não leva alugar nenhum, apenas reforça a característica, vamos começar aceitando e deixando por isto mesmo.

 

 

 

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